sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Bagagens

Todas as vezes em que estou arrumando minhas coisas para viajar, meu pai me pergunta: "Para que tanta bagagem?". Eu sempre dou a mesma explicação:"é melhor estar prevenida. Eu não sei o que pode acontecer na viagem!". Já fiz malas enormes, pesadas e nunca usei todas as roupas, todos os brincos, sapatos e nem li todos os livros que levei. Hoje, eu me peguei refletindo : "Para que tanta bagagem?", "Será que uma mala mais leve não seria mais prática?", "Eu poderia deixar algumas coisas que não me serão necessárias...". 
O curioso foi perceber que a minha principal dificuldade era classificar alguns itens como necessários ou não necessários. Por exemplo, observei uma sandália azul de salto de uns 15 cm, embora já tivessem outras sandálias na mala, eu insistia em levá-la. Em meio a reflexão, me questionei sobre o caráter necessário daquela sandália. Por sua vez, depois de considerar que a sandália era bonita, estava na moda e me deixaria mais alta, me peguei pensando que  naquela viagem ela provavelmente não seria usada, não seria útil, só "pesaria na mala". Então, deixei-a. E instintivamente comecei a refletir sobre a minha vida, coisa que faço bastante, especialmente nos últimos anos. 
Pensei na bagagem da minha vida, nas coisas que me são necessárias e em quantas "sandálias azuis" eu estaria carregando na minha mala. Pensei em quanto peso desnecessário eu carrego. No quão cheia poderia estar a minha mala, e especialmente, pensei nas coisas e que eu podia escolher entre deixá-las e levá-las comigo. Em uma auto-investigação, comecei a perceber as sandálias azuis da minha bagagem para a vida. Comecei a encontrar sentimentos, momentos, hábitos, pessoas, roupas velhas e mais um monte de coisas que poderiam ser deixadas para trás porque simplesmente não preciso delas. Uma parte já foi necessária, teve razão de estar ali, mas, não agrega mais valor. 
Alguns amores precisavam sair definitivamente da minha bagagem para que outros pudessem entrar. Alguns hábitos que me faziam mal, ou não me acresciam em nada, precisavam dar lugar a hábitos saudáveis, que enriquecessem a minha longa viagem. Algumas pessoas precisavam ser deixadas. Me senti mal em pensar em um "descarte" de pessoas, mas, foi preciso me conscientizar de que a gente tem que estar cercado de quem nos quer bem, de quem a gente gosta e não de todo mundo. Até porque, todo mundo não cabe na minha mala, nem na de ninguém. 
Ainda havia muita coisa para ser deixada, muitos sentimentos, livros que já foram lidos e coisas que já estavam guardadas em mim e não precisavam de tanto espaço na minha vida. Mas, eu pude perceber que ao contrário da mala que eu fechei para viajar, sem a sandália azul e uma porção de coisas, a bagagem que a gente carrega na vida deve ser constantemente aberta, arrumada, desarrumada, revista... Primeiro porque precisamos de espaço para que as mudanças surjam, que coisas novas possam pertencer a nossa bagagem. Segundo, porque a vida é uma viagem constante, nós decidimos constantemente o que deixamos e o que levamos. Tem coisas que levamos para sempre, outras a gente não precisa carregar por tanto tempo.  E terceiro, bagagem pesada demais dói, cansa, sufoca, estressa, mata... E o mais importante, a nossa bagagem só se fecha quando deixamos de viver, enquanto houver a viagem, a vida, há escolhas para fazer. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Devaneio


Inúmeras vezes compartilhamos os mesmos ponteiros, o mesmo vão. Suas histórias descabidas me fazem rir. E cada riso irradia a nossa cumplicidade voluntária, graciosa. Em meio a tantas besteiras, artimanhas para me arrastar à insônia, escapam-me os segredos. Somem as minhas ressalvas. Já me flagrei repetindo os instantes, pensando demasiadamente em você.  Confesso que de vez em quando, imagino-me partilhando de um mesmo afago sorrateiramente cálido contigo. Imagino o teu olhar sereno pousado sobre o meu sono, velando cada peça da minha respiração e me fazendo sorrir vagarosamente. O entrelaço de pernas, o silêncio consentido. Sem palavras que precisam ser urgentemente ditas. Só a distração da entrega, do que foi vivido. Não ousaria jogar seu jogo. Não me encaixaria nesse seu seu tabuleiro parvo, nessas suas regras fingidas. Mas não me sossega não te ter. Ensejo o dia que em meio aos descuidos da vida seus olhos astutos com os meus se cruzem. Que você fuja ou por sorte fique, para que finalmente possa lhes dizer, o que eu preciso dizer.